sexta-feira, setembro 17

Metáfora.

Seus pés antes cansados, agora pulsavam em profunda dor. Ela não fazia ideia de há quanto tempo, exatamente, estava caminhando. Parou algumas vezes para pedir informação, mas nenhuma informação foi clara o suficiente, algumas só a deixaram mais confusa. Por isso continuava a andar, não sabia qual era o destino final, mas sabia que quando este se apresentasse, ela o reconheceria.
Pisou numa pedra acidentalmente e suas feridas se abriram, sangue jorrava de seus pés cansados e a menina não pode conter as lágrimas, chorava desesperadamente... Pensou em desistir, em ficar naquele ponto, em não avançar. Ela não aguentava mais caminhar, continuar perdida parecia a melhor opção agora ou, pelo menos, a mais fácil. E então ela veio. Começou fraca como quem pede licença para entrar, e depois foi ficando mais forte, tornando-se quase um temporal. A chuva tinha se tornado a melhor amiga da menina nessa jornada, sempre aparecia para refrescá-la, para limpar a mente dela. E, às vezes, dava a força necessária para ela prosseguir. 
Logo, a menina se levantou e, mesmo com o sangue jorrando, ela continuou caminhando, num ritmo lento, quase parando, mas ela não parou. Seguiu em frente com a chuva batendo fortemente em seu rosto, às vezes bloqueando a sua visão, mas ela continuou. As feridas iam se tornando cada vez mais profundas, a dor aumentava cada vez mais. Entretanto, a menina não se rendia. Seguiu em linha reta por mais tempo do que ela conseguia calcular, até se ver diante de uma bifurcação. O caminho da direita era de areia fofa e limpa, a chuva, de alguma maneira, não chegava lá. Já o caminho da esquerda estava sendo castigado por um forte temporal, um temporal que o mundo nunca havia visto! Então, ela pegou o caminho da direita, feliz pela perspectiva de um caminho diferente, feliz pela tranquilidade que tudo aparentava. Mas a menina se esqueceu de um detalhe, a chuva era a sua melhor amiga nessa jornada. E no caminho que ela escolheu, sua melhor amiga não estava presente.

quinta-feira, setembro 16

Carta para Julieta.

Sei como é sentir aquele aperto no peito ao falar com a pessoa amada, já senti uma sensação quente tomar conta do meu ser a um simples toque, já quis estar ao lado de quem gosto com todas as minhas forças, já ouvi o famoso "a sua voz é a última coisa que quero ouvir antes de dormir". Já senti o amor, já fui o amor, já acreditei em todas as juras que me foram dedicadas. 
Hoje não sinto mais amor, só sinto um vazio crescente se apoderando de mim e confesso pedir, implorar para que esse vazio suma, para que apareça alguém que me mostre que cruzar os oceanos vale a pena para sentir a mais bela e pura forma de amor. Mas a cada dia que passa perco mais e mais a esperança de que as minhas preces sejam atendidas. Se pudesse sentir o aperto no peito, a sensação quente, o querer estar perto de novo, me agarraria a isto! Anseio por um amor como o de Julieta, que me faça suspirar em um balcão e olhar para as estrelas desejando estar ao lado de um Romeu, ou, pelo menos, uma boa imitação dos sentimentos que ocorreram em Verona.

Esperando ansiosamente pela resposta,
Julieta.


Texto produzido com base na tradição de escrever cartas de amor para Julieta Capuleto, intitulando-se como a mesma.

quinta-feira, setembro 9

Falsa felicidade.

As lágrimas que caem dos meus olhos não são as mesmas de dois anos atrás.
O sorriso que aparece em meu rosto é mais falso que nota de três reais.
Entretanto, é prova de força e lealdade.
Afinal, para quê derrubar o tripé da falsa felicidade?

sexta-feira, setembro 3

Falar é fácil, já fazer...

Encontramo-nos em estado de calamidade. Não calamidade ambiental, mas social e espiritual. Tornamo-nos cada dia mais corruptíveis e acomodados, alguns dizem que ser acomodado é o "jeitinho brasileiro", mas, os de bom senso, devem discordar. Brasileiro é um povo determinado, guerreiro... Pelo menos é assim quando se trata de futebol, assunto de importância nacional, entretanto quando se trata de assuntos de pouca importância como corrupção ou política, somos o povo do falatório: Falamos, falamos e não fazemos nada à respeito.
Vivemos em guerra diária contra o tráfico, a polícia corrupta e contra nós mesmos. A boca que reclama da falta de saneamento com as amigas é a mesma que aparece sorrindo no guia eleitoral do candidato-falta-de-saneamento. Não podemos abaixar a cabeça e sorrir só porque nos foi mandado, devemos usar da mesma garra que tivemos para convencer o mundo de que somos capazes de sediar uma Copa do Mundo e uma Olimpíada para, realmente, nos tornarmos capazes disso! Sediar um evento desse porte não é apenas construir estádios é, também, educar o povo para que não "sambem" quando os estrangeiros pedirem. Afinal, é muito fácil se deixar levar pelas opiniões dos outros, já criar as suas e defendê-las...
Para sair desse eterno estado de inércia, devemos aprender a fazer, não apenas falar. Precisamos de uma melhor rede de esgoto? Criemos um abaixo-assinado para ser entregue à prefeitura. Falta um espaço cultural na cidade? Fundemos um, pequeno mesmo... O que não podemos é nos deixar acomodar com uma situação, temos que lutar para que a nossa voz seja ouvida. Temos que nos informar para votarmos conscientes. Temos que parar de ser empurrados para um abismo sem fazer nada!
O "jeitinho brasileiro" é o jeito determinado e ambicioso, que luta pelo o que quer e precisa sem se acomodar. Não foram brasileiros os líderes de diversas revoltas separatistas? Resgatemos a força de nossos antepassados para agir agora. Mostra a tua cara, Brasil!

segunda-feira, agosto 30

E, às vezes, simplesmente acontece.

A emoção parecia transbordar de dentro dela, acordou de bom humor como Branca de Neve acordada por passarinhos... Tudo era motivo para cantar, para sorrir, para agradecer, para amar. Ah, amar! Ela mal acreditava no que tinha acontecido na noite passada. 
Havia saído para um barzinho com as amigas e acabara esbarrando nele. Ah, ele! Olhares foram trocados, risadas compartilhadas, pernas iam e vinham por baixo da mesa... Eles se provocaram, se beijaram, se amaram. Ela o amava desde que se conheceram. Estudaram juntos por mais de nove anos, mas nada nunca aconteceu, ela era apenas a amiga nerd do popular do colégio. Mas agora ela não conseguia acreditar! Ele disse a amava, que a queria, que sempre quis... Como ela desejava ouvir aquilo. E seus olhos brilhavam a cada jura de amor pronunciada por ele, a cada sorriso que ela tinha a honra de presenciar. E ele prometera ligar, disse que assim que acordasse telefonaria para saírem outra vez. Ela finalmente o teria em sua vida, eles se tornariam um só... Ela nunca foi tão feliz!
13:00. 14:00. 15:00. 16:00. 17:00. 18:00. 19:00. 20:00. 21:00. 22:00. 23:00. 00:00.
Ela cansara de esperar, pegou o telefone para ligar para ele. Ela sabia que ele ia ficar feliz em falar com ela mesmo que fosse tarde da noite. Mas então parou, não queria atrapalhar o sono dele. Disse para si mesma que iria esperar, quando a manhã chegasse ele ligaria, afinal ele a amava. Ele a amava, certo? Ou foi tudo mera encenação? Com a angústia batendo forte dentro de seu peito ela foi deitar esperando que a manhã trouxesse o seu amor.

Música recomendada para ouvir com esse conto: You, do The Pretty Reckless.

sábado, agosto 28

Factory girl.

Vinte reais na carteira, um maço de cigarros e uma cartela de camisinhas. Era tudo que ela trazia em sua bolsa naquela noite, apenas o necessário. Ela dava os últimos retoques na maquiagem, escurecendo ainda mais sua sombra preta, quando o ônibus chegou. Estava lotado, como sempre. "Ótimo", ela pensou ironicamente enquanto subia no ônibus. Logo que passou pela catraca, todos os olhares naquela lata de sardinhas se voltaram para ela: a garota que usava um top preto mínimo, quase do mesmo tamanho que seu sutiã. Por cima, ia uma curta jaqueta de couro preta, que tornava o look "próprio para se usar em público". Uma calça skinny jeans completava o visual. E, combinado com a pesada maquiagem, fazia-a parecer uma prostituta barata nas palavras das três carolas que a ofereceram a "salvação divina" e na de dois homens que perguntaram quanto ela cobrava pelo programa. A palavra "foda-se" deve ter sido mencionada umas cinco ou seis vezes durante essas breves conversas e, também, deve ter sido o motivo delas terem sido tão breves.
Quando a sua parada se aproximava, ela suspirou em alívio e desceu em frente a um bar estranho... Estranho até para ela. A garota andava à passos largos e rápidos, era de se imaginar que seu salto de 22cm fizesse com que ela perdesse o equilíbrio, mas, felizmente, ela já era uma profissional e logo chegou ao seu destino. Um armazém na parte quase abandonada da cidade, onde seria realizado o show de sua banda de rock favorita. O ingresso custava R$50, ela só tinha vinte e sabia que, do jeito convencional, ela não conseguiria entrar. Mas, ela não era uma garota convencional. Então foi para os fundos do armazém e tentou subornar os seguranças, mas percebeu que cinquenta reais e um maço de cigarros não iam bastar. Foi então que resolveu apelar para a última instância e se ofereceu para os dois seguranças que guardavam a porta dos fundos. Um leve sorriso apareceu nos lábios dos dois que acenaram com a cabeça e deixaram-a entrar. Como ela ia sair dessa? E quem liga... O importante era que ela estava dentro, sair não é uma preocupação imediata. Sempre há uma maneira de sair sem ser notada, principalmente quando havia briga... Brigas. Era exatamente disso que ela precisava, armar uma briga. E existe algo mais fácil do que armar uma briga em um show de rock?

Conto baseado na música Factory Girl, do The Pretty Reckless.

sexta-feira, agosto 27

Sense or sensibility?

Um pequeno filete de luz começava a se tornar nítido diante de seus olhos, ela sabia que a hora estava chegando e rezava para que Deus atendesse as suas preces e o tirasse dali. Ela não queria que ele a visse dessa forma, que visse a vida fugir de seu rosto... Mas sabia que ele a amava mais do que tudo e que não a abandonaria numa hora dessas, porém lá no fundo tinha a esperança de que quando a sua morte se anunciasse, ele não iria estar presente. Para aumentar a sua aflição, ele continuava lá, segurando a sua mão firmemente como se aquele momento fosse o mais importante de toda a sua vida. E então aconteceu. A luz foi se tornando mais forte, parecia que estava puxando-a pouco a pouco. Ela tentou se segurar por um momento, se concentrando em tudo que importava em vida para ela. Mas não aguentou e foi sendo carregada para longe, foi se deixando levar pela luz, pois, de alguma maneira, ela sabia que tudo iria ficar bem no final. 
E de repente, ela sentiu que ele havia soltado a sua mão, ela se sentia livre e feliz por ele não ver o seu final. Antes de sair pela porta, ele deu um beijo em sua testa e disse que logo voltava, embora ela soubesse que "logo", nesse caso, era muito tempo. Assim que a porta se fechou, ela começou uma pequena oração pedindo para que ele continuasse sua vida sem outras decepções. Uma pequena lágrima escorreu de seus olhos quando pensou nele e no amor que sentiam, mas com sua frágil mão limpou o rosto enquanto ouvia um barulho na porta. Ele voltara, voltara para ela, porque a amava. O sentimento revirou seu estômago e iluminou seus olhos, a luz se tornou mais forte e vinha rápido em sua direção e, antes que pudesse dizer adeus, aquela luz fundiu-se com seu debilitado corpo deixando-a imóvel e fria. Estava morta.

quinta-feira, agosto 26

Sensibility.

Em meio ao caos que se instaurou, tudo o que se ouvia era um soluço baixo, quase inaudível naquele quarto que em outros dias já fora o refúgio do casal. Ele sabia que ela não ia sobreviver e não acreditava em vida após a morte para tentar se acalmar com aquela possibilidade. Tudo que importava para ele era o aqui e agora e ele sabia que não poderia protegê-la, que não poderia salvá-la. E ver o sofrimento naquele rosto que ele tanto amava só fazia com que ele se sentisse mais e mais impotente. Ver a vida dela se esvair daquela maneira nunca fora considerado quando eles decidiram morar juntos, a notícia do câncer também não. Entretanto, o que tornava a angústia dele ainda pior era a recusa dela por tratamento, ela escolhera não lutar e pediu para que ele assistisse de camarote seus últimos dias... Era revoltante! Ele sabia que não poderia fazer nada e não queria assistir isso, então soltou a mão frágil de sua companheira e disse que logo voltava, só ia buscar um copo d'água. Ao chegar à cozinha se arrependeu no mesmo momento de ter deixado-a sozinha, então voltou, voltou o mais rápido que podia. Seus passos pareciam pequenos e o corredor parecia nunca acabar. Quando finalmente alcançou a porta do quarto, tirou de seu bolso a aliança que carregava desde o dia em que descobriram sobre a doença... o dia em que ele ia pedi-la em casamento. E, tomando coragem, abriu a porta e com um enorme sorriso no rosto disse em voz alta "Case-se comigo. Aqui, agora. Eu só quero..." e sua voz se perdeu. Ele percebeu que ela não se movera ou falara nada diante de sua proposta, aproximou-se para ver como estava, mas ela continuava imóvel, muda. Estava morta.