Em meio ao caos que se instaurou, tudo o que se ouvia era um soluço baixo, quase inaudível naquele quarto que em outros dias já fora o refúgio do casal. Ele sabia que ela não ia sobreviver e não acreditava em vida após a morte para tentar se acalmar com aquela possibilidade. Tudo que importava para ele era o aqui e agora e ele sabia que não poderia protegê-la, que não poderia salvá-la. E ver o sofrimento naquele rosto que ele tanto amava só fazia com que ele se sentisse mais e mais impotente. Ver a vida dela se esvair daquela maneira nunca fora considerado quando eles decidiram morar juntos, a notícia do câncer também não. Entretanto, o que tornava a angústia dele ainda pior era a recusa dela por tratamento, ela escolhera não lutar e pediu para que ele assistisse de camarote seus últimos dias... Era revoltante! Ele sabia que não poderia fazer nada e não queria assistir isso, então soltou a mão frágil de sua companheira e disse que logo voltava, só ia buscar um copo d'água. Ao chegar à cozinha se arrependeu no mesmo momento de ter deixado-a sozinha, então voltou, voltou o mais rápido que podia. Seus passos pareciam pequenos e o corredor parecia nunca acabar. Quando finalmente alcançou a porta do quarto, tirou de seu bolso a aliança que carregava desde o dia em que descobriram sobre a doença... o dia em que ele ia pedi-la em casamento. E, tomando coragem, abriu a porta e com um enorme sorriso no rosto disse em voz alta "Case-se comigo. Aqui, agora. Eu só quero..." e sua voz se perdeu. Ele percebeu que ela não se movera ou falara nada diante de sua proposta, aproximou-se para ver como estava, mas ela continuava imóvel, muda. Estava morta.
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