quarta-feira, abril 20

À força.

Onde pensa que está indo? Não, não. Fique aqui! Isso mesmo, sentada aí. Agora olhe pra mim. OLHE PRA MIM! Olhe no fundo dos meus olhos... Isso... Sorria, sorria mais. Mostre os dentes, tem que parecer verdadeiro! Melhor... Seus olhos tem que brilhar, tem que estar iluminados. POR QUE ELES NÃO BRILHAM? Ah, agora está chorando? Sua... Não, não. Isso é ótimo. As lágrimas são para expressar o que você sente, não é? Muito bom, muito bom. Agora, coloque aquele sorriso de volta no seu rosto. Isso, perfeito. Agora faça o que te pedi no começo. Faça logo!
"Eu te amo", ela disse baixinho, com muito esforço.
Eu não ouvi. O que você disse? Fale mais alto. Grite! Quero que todos ouçam. Anda, diga logo. Eu não tenho o dia todo.
"Eu te amo", falou ela com mais força. 
Esse é o melhor momento da minha vida, você me ama... Eu sempre quis ouvir isso de você. Eu, eu não sei o que dizer. Obrigado.
E assim ele saiu, como se nada tivesse acontecido, como se não tivesse imposto aquelas palavras, aquele sentimento à criatura que ele dizia amar. Amor hoje é uma palavra tão banalizada.

terça-feira, abril 19

Suspiro.

Agora é madrugada e enquanto tento dormir, vários pensamentos passam por minha cabeça. Dos mais ridículos até as mais perfeitas fantasias. Fantasias onde estamos juntos. Fantasias onde seu corpo está tão próximo do meu que quase me falta espaço para respirar. Fantasias onde sua mão encosta na minha causando assim uma corrente elétrica que passa por cada um dos meus dedos até chegar ao meu coração, eletrizando-o e acelerando-o, que chego a pensar que o mesmo irá parar. Fantasias onde sua boca está próxima a minha e tudo em que consigo pensar é em tê-la cada vez mais próxima... 
Essas fantasias tomam conta de mim, fazem-me suspirar pelos cantos. Fazem-me suspirar suspiros poéticos de saudade daquilo que nunca tive.

segunda-feira, abril 18

De mãos dadas.

No meio da multidão ela era só mais uma, mas no círculo de amigas em que se encontrava, ela era a diversão em pessoa. Dançava como se não houvesse amanhã e ria a cada movimento que fazia, ria aquele riso do tipo contagiante, que lembrava o de uma criança. Mas entre ela e uma criança, a única semelhança era o riso, pois a boca e o resto do corpo eram dignos de publicações masculinas, logo, a moça arrancava suspiros dos rapazes por onde quer que passasse. "Formosa desse jeito, só podia ser metida!", dizia Flúvio de Zezé, bom partido que havia caído no feitiço da bela moça, mas que como todos os outros rapazes recebera um "não" ao convidá-la para um simples arrasta-pé. A fama de intocável onseguia ser ainda maior do que sua beleza; era taxada de fria por recusar os garotos.
Em meio à festa que já ia se arrastando pela noite, todos continuavam a cortejar a bela moça, mas ela os ignorava. Fazia isso como esporte, e atraia assim mais rapazes que tentavam a sorte e mais amigas que adoravam vê-la recusando-os das maneiras mais inusitadas e que sempre acabavam aproveitando para consolá-los.
Quando o pé começou a reclamar, ela decidiu ir para a casa. Não havia mais nada para fazer naquele baile de São João. Então pegou sua bolsa e andou em direção a porta, mas uma das alças de sua bolsa se partiu, fazendo com que ela tropeçasse e caísse de cara no chão. Ela caiu de cara no chão. No meio do salão. No mesmo momento a banda parou de tocar e todos se viraram para ver a queda da rainha do gelo. Ela passou alguns minutos no chão, esperando que um de seus admiradores ou amigas a ajudasse a levantar. Mas nenhum deles se apresentou. Percebendo que se não fosse por conta própria, ela nunca sairia dali; reuniu forças e ficou em pé. Ao fazer isso reparou na quantidade de rostos que a encaravam e seu rosto adquiriu um tom de vermelho jamais visto. 
Sentindo seu rosto esquentar, ela colocou a bolsa debaixo do braço e saiu determinada em direção à porta. O som de seus sapatos ecoava no piso de madeira. Quando estava fora do salão, ela sentou no chão e colocou as mãos no rosto percebendo a vergonha que acabara de passar. "Parece que sempre andei de mãos dadas contigo, solidão, mas só agora percebi.".

sábado, abril 16

Encantados.

Espiou pela janela por um minuto, fechou os olhos e sentiu a brisa tocar suavemente o seu rosto, sentiu também o cheiro da chuva que caíra pela tardezinha. Chuva essa que significava renovação. Ao perceber isso um sorriso arteiro brotou em seu rosto, mas ao abrir os olhos o sorriso se desfez quando encontrou o relógio. Estava quase na hora... 
Abriu a mala e um por um, pôs seus vestidos dentro dela, dobrando-os cuidadosamente, como se fossem os bens mais preciosos que possuía. E na verdade eram. Cada um deles trazia uma memória à tona. Cada um deles fora escolhido à dedo para impressionar, para alegrar, para seduzir... Novamente aquele sorriso voltou ao seu rosto e a lembrança que cada um de seus vestidos guardava passou por sua mente como num curta-metragem. 
Logo que concluída a tarefa, fechou a mala em tempo de escutar um gorjeio e assim, com este simples gorjeio, seu coração disparou. "É ele!", pensou a moça. Correu para o balcão só para confirmar e, sob a luz da mais bela lua cheia, ela o viu. Usava suas vestes de sempre, simples para os padrões da alta sociedade que só o enxergavam como um mero fazendeiro. Mas para ela eram vestes dignas de um rei, eram vestes que tinham o seu cheiro, a sua essência. Ao lembrar do cheiro dele seu coração pareceu pifar mas ela tinha se acostumado com essa situação sempre que estava perto dele.
Ela então sorriu o sorriso mais verdadeiro e doce que já dera em toda a vida e apesar da escuridão da noite, ela pode ver que os olhos dele brilharam ao perceber o sorriso. E não pôde esperar para estarem juntos novamente, ela segurou a mala debaixo de um de seus braços, deu um singelo adeus ao seu quarto que fora cúmplice de seus encontros secretos e desceu as escadas como se dançasse o ato final de O Lago dos Cisnes, com passos precisos, rápidos e silenciosos. Ao chegar ao salão principal parou, espiou por trás do ombro em direção à cozinha, queria se despedir de sua fiel confidente, mas não havia tempo para despedidas. 
Correu em direção a porta, sem olhar para trás novamente, e logo se viu na escuridão sozinha. Livre. Em poucos segundos, ele apareceu sorrindo e esbanjando a felicidade que sentia diante dessa nova fase de suas vidas. Segurou a mala dela para que a moça erguesse a cauda de seu belo vestido rendado evitando que o mesmo sujasse. Então deram um rápido beijo e ele a ajudou a montar no cavalo, ou o alazão como ela preferia chamar, e assim seguiram viagem sem trajeto definido, apenas em busca da tão famosa felicidade.