No meio da multidão ela era só mais uma, mas no círculo de amigas em que se encontrava, ela era a diversão em pessoa. Dançava como se não houvesse amanhã e ria a cada movimento que fazia, ria aquele riso do tipo contagiante, que lembrava o de uma criança. Mas entre ela e uma criança, a única semelhança era o riso, pois a boca e o resto do corpo eram dignos de publicações masculinas, logo, a moça arrancava suspiros dos rapazes por onde quer que passasse. "Formosa desse jeito, só podia ser metida!", dizia Flúvio de Zezé, bom partido que havia caído no feitiço da bela moça, mas que como todos os outros rapazes recebera um "não" ao convidá-la para um simples arrasta-pé. A fama de intocável onseguia ser ainda maior do que sua beleza; era taxada de fria por recusar os garotos.
Em meio à festa que já ia se arrastando pela noite, todos continuavam a cortejar a bela moça, mas ela os ignorava. Fazia isso como esporte, e atraia assim mais rapazes que tentavam a sorte e mais amigas que adoravam vê-la recusando-os das maneiras mais inusitadas e que sempre acabavam aproveitando para consolá-los.
Quando o pé começou a reclamar, ela decidiu ir para a casa. Não havia mais nada para fazer naquele baile de São João. Então pegou sua bolsa e andou em direção a porta, mas uma das alças de sua bolsa se partiu, fazendo com que ela tropeçasse e caísse de cara no chão. Ela caiu de cara no chão. No meio do salão. No mesmo momento a banda parou de tocar e todos se viraram para ver a queda da rainha do gelo. Ela passou alguns minutos no chão, esperando que um de seus admiradores ou amigas a ajudasse a levantar. Mas nenhum deles se apresentou. Percebendo que se não fosse por conta própria, ela nunca sairia dali; reuniu forças e ficou em pé. Ao fazer isso reparou na quantidade de rostos que a encaravam e seu rosto adquiriu um tom de vermelho jamais visto.
Sentindo seu rosto esquentar, ela colocou a bolsa debaixo do braço e saiu determinada em direção à porta. O som de seus sapatos ecoava no piso de madeira. Quando estava fora do salão, ela sentou no chão e colocou as mãos no rosto percebendo a vergonha que acabara de passar. "Parece que sempre andei de mãos dadas contigo, solidão, mas só agora percebi.".
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