sábado, abril 16

Encantados.

Espiou pela janela por um minuto, fechou os olhos e sentiu a brisa tocar suavemente o seu rosto, sentiu também o cheiro da chuva que caíra pela tardezinha. Chuva essa que significava renovação. Ao perceber isso um sorriso arteiro brotou em seu rosto, mas ao abrir os olhos o sorriso se desfez quando encontrou o relógio. Estava quase na hora... 
Abriu a mala e um por um, pôs seus vestidos dentro dela, dobrando-os cuidadosamente, como se fossem os bens mais preciosos que possuía. E na verdade eram. Cada um deles trazia uma memória à tona. Cada um deles fora escolhido à dedo para impressionar, para alegrar, para seduzir... Novamente aquele sorriso voltou ao seu rosto e a lembrança que cada um de seus vestidos guardava passou por sua mente como num curta-metragem. 
Logo que concluída a tarefa, fechou a mala em tempo de escutar um gorjeio e assim, com este simples gorjeio, seu coração disparou. "É ele!", pensou a moça. Correu para o balcão só para confirmar e, sob a luz da mais bela lua cheia, ela o viu. Usava suas vestes de sempre, simples para os padrões da alta sociedade que só o enxergavam como um mero fazendeiro. Mas para ela eram vestes dignas de um rei, eram vestes que tinham o seu cheiro, a sua essência. Ao lembrar do cheiro dele seu coração pareceu pifar mas ela tinha se acostumado com essa situação sempre que estava perto dele.
Ela então sorriu o sorriso mais verdadeiro e doce que já dera em toda a vida e apesar da escuridão da noite, ela pode ver que os olhos dele brilharam ao perceber o sorriso. E não pôde esperar para estarem juntos novamente, ela segurou a mala debaixo de um de seus braços, deu um singelo adeus ao seu quarto que fora cúmplice de seus encontros secretos e desceu as escadas como se dançasse o ato final de O Lago dos Cisnes, com passos precisos, rápidos e silenciosos. Ao chegar ao salão principal parou, espiou por trás do ombro em direção à cozinha, queria se despedir de sua fiel confidente, mas não havia tempo para despedidas. 
Correu em direção a porta, sem olhar para trás novamente, e logo se viu na escuridão sozinha. Livre. Em poucos segundos, ele apareceu sorrindo e esbanjando a felicidade que sentia diante dessa nova fase de suas vidas. Segurou a mala dela para que a moça erguesse a cauda de seu belo vestido rendado evitando que o mesmo sujasse. Então deram um rápido beijo e ele a ajudou a montar no cavalo, ou o alazão como ela preferia chamar, e assim seguiram viagem sem trajeto definido, apenas em busca da tão famosa felicidade.

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