sábado, agosto 28

Factory girl.

Vinte reais na carteira, um maço de cigarros e uma cartela de camisinhas. Era tudo que ela trazia em sua bolsa naquela noite, apenas o necessário. Ela dava os últimos retoques na maquiagem, escurecendo ainda mais sua sombra preta, quando o ônibus chegou. Estava lotado, como sempre. "Ótimo", ela pensou ironicamente enquanto subia no ônibus. Logo que passou pela catraca, todos os olhares naquela lata de sardinhas se voltaram para ela: a garota que usava um top preto mínimo, quase do mesmo tamanho que seu sutiã. Por cima, ia uma curta jaqueta de couro preta, que tornava o look "próprio para se usar em público". Uma calça skinny jeans completava o visual. E, combinado com a pesada maquiagem, fazia-a parecer uma prostituta barata nas palavras das três carolas que a ofereceram a "salvação divina" e na de dois homens que perguntaram quanto ela cobrava pelo programa. A palavra "foda-se" deve ter sido mencionada umas cinco ou seis vezes durante essas breves conversas e, também, deve ter sido o motivo delas terem sido tão breves.
Quando a sua parada se aproximava, ela suspirou em alívio e desceu em frente a um bar estranho... Estranho até para ela. A garota andava à passos largos e rápidos, era de se imaginar que seu salto de 22cm fizesse com que ela perdesse o equilíbrio, mas, felizmente, ela já era uma profissional e logo chegou ao seu destino. Um armazém na parte quase abandonada da cidade, onde seria realizado o show de sua banda de rock favorita. O ingresso custava R$50, ela só tinha vinte e sabia que, do jeito convencional, ela não conseguiria entrar. Mas, ela não era uma garota convencional. Então foi para os fundos do armazém e tentou subornar os seguranças, mas percebeu que cinquenta reais e um maço de cigarros não iam bastar. Foi então que resolveu apelar para a última instância e se ofereceu para os dois seguranças que guardavam a porta dos fundos. Um leve sorriso apareceu nos lábios dos dois que acenaram com a cabeça e deixaram-a entrar. Como ela ia sair dessa? E quem liga... O importante era que ela estava dentro, sair não é uma preocupação imediata. Sempre há uma maneira de sair sem ser notada, principalmente quando havia briga... Brigas. Era exatamente disso que ela precisava, armar uma briga. E existe algo mais fácil do que armar uma briga em um show de rock?

Conto baseado na música Factory Girl, do The Pretty Reckless.

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